6 de outubro de 2016

ENTREVISTA: KARLA PIETSCH | PSICÓLOGA / RELAÇÕES INTERNACIONAIS

Cada pessoa tem suas próprias histórias e experiências relacionadas a como vieram parar na Suécia e ao que fazem por aqui. Contar estas histórias ajudam, e muito, outras pessoas que pretendem vir para o país. Por isso, decidi entrevistar outros brasileiros que moram aqui e compartilhar com vocês as diversas formas pelas quais outras pessoas vieram morar na Suécia.

A primeira destas entrevistas é com Karla Pietsch, que se formou em Psicologia no Brasil e é profissional de RH/International Assignments na Suécia.

FALE UM POUCO SOBRE VOCÊ
Sou psicóloga, tenho 29 anos, sou pós graduada em RH e neuro-ética e Mestranda em Ciências políticas com ênfase em Relações Internacionais. Hoje sou responsável por mobilidade Internacional de pessoas para uma empresa multinacional do ramo hidroelétrico na Suécia. Trabalho também com mediação de negócios e dando suporte ao RH em tudo que diz respeito a expatriação e treinamentos cross culturais de funcionários que precisam se adaptar em nossos projetos no exterior. 

Sou casada com um Croata-Sueco e amo viajar, o que faço bastante tanto a trabalho quanto sempre que tenho algum tempo livre. Viajar é meu maior prazer, amo conhecer lugares, culturas, aprender línguas é fascinante! Além de viajar, amo dançar e qualquer esporte que envolva água! Amo o mar! Adoro velejar,  andar de caiaque, barco, wind... Me sinto inteira quando estou na água... pena aqui na Suécia é tão frio na maior parte do ano. Odeio puxar ferro e locais fechados como academias. Sou nascida em 04/11/1986, escorpiana, com ascendente em gêmeos, para quem acredita em astrologia, uma pessoa “meio” intensa, “macabrosa” e com dupla personalidade. Musicalmente, curto rock clássico e funk carioca... vou de White Snake a Mr.Catra, fácil! Haha!


POR QUE VEIO PARA  A SUÉCIA E HÁ QUANTO TEMPO MORA NO PAÍS?
Moro na Suécia há quase 5 anos. Foram duas as razões principais da mudança do Brasil para cá:
1º - Para ficar mais perto do meu marido, que naquela época era namorado, ou noivo...  sei lá. Ele tinha me pedido em casamento, mas eu ainda não havia “aceitado” ou me convencido... no final fui sequestrada  e gostei!
2º- Desenvolvimento profissional, eu queria saber como era trabalhar e estudar fora do Brasil.

COMO FOI O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO? (O MAIS FÁCIL E O MAIS DIFÍCIL)
Karla: Não foi fácil. Apesar de trabalhar parte do meu tempo com treinamentos cross-culturais ajudando outras pessoas a adaptarem-se no exterior, “em casa de ferreiro, espeto é de pau!”; Chorei muito! Morria de saudade do Brasil, dos meus amigos, da família e achava as pessoas aqui muito frias e fechadas. 

Mas o mais difícil mesmo foi ter que ouvir não. Tudo aqui deve ser preparado nos mínimos detalhes e quase nada é flexível. Levei muito tempo para conseguir organizar meus documentos escolares do Brasil, traduzir tudo, notarizar, organizar e validar aqui. Não sabia o que me dava mais raiva, se era o sistema do Brasil que não entregava os documentos, ou se era o da Suécia que não aceitava nada e queria até comprovante fotográfico dos pentelhos da alma da minha bisavó na encarnação passada. Esta situação gerava um cansaço muito grande. Aliás, estar no meio de dois mundos gera um cansaço muito grande. Sua família quer você de um lado, seu marido quer você do outro, fica um cabo de guerra e se você não tomar cuidado quem se parte é você. 

No mais, não poder nem comprar pão durante quase 5 anos falando sua própria língua deixa você meio tenso; três meses por ano quase sem luz solar e com temperaturas variando de -5 a -25 graus, deixam você meio lunático... Mas, como quase tudo na vida, a adaptação se dá com o tempo. 

Você precisa aprender que quando se muda para outro lugar até trejeitos naturais seus vão parecer estranhos para outras pessoas, às vezes amedrontá-las. Acho que uma vantagem que os brasileiros costumam ter em comparação a outros imigrantes neste sentido é a nossa flexibilidade e senso de humor. É preciso se manter feliz e perseverar! Sabe aquela frase, “brasileiro não desiste nunca”? É bem por aí... 

Tenho minhas dúvidas enquanto profissional de saúde quanto a pessoas que dizem que se adaptar aqui é muito fácil; isso me faz pensar nas teorias de construção de caráter e personalidade e na significância do passado, mas esse papo iria ser chato demais... então fica aqui respondido: Não! não foi fácil me adaptar na Suécia. Por que? porque eu sou eu, e vou ser eu em qualquer lugar do mundo. Adaptação é um processo de vivência, descoberta e aprendizado,;não é como pedir fast food! 

Também sofri preconceito aqui, mas tô de tão bom humor  hoje  que nem quero falar disso não. Prefiro pensar que foi um mal entendido. Mais amor por favor!


O QUE VOCÊ MAIS GOSTA E MENOS GOSTA SOBRE A SUÉCIA?
Mais gosto: Segurança, acesso à educação, igualdade social, possibilidades de crescimento profissional e o silêncio, adoro o silêncio... 

Menos gosto: NEVE, frio, o sistema público de saúde e o silêncio, odeio o silêncio... 
O que eu quero dizer é que eu amo e odeio o silêncio. Amo porque me concentro, foco nas minhas metas, tenho mais tempo para pensar. Odeio porque me faz sentir saudade do barulho do brasil e me lembra que tô longe de casa, especialmente da minha mãe, que tem mania de deixar um rádio ligado em casa no último volume.

Os hospitais daqui são ótimos, limpos, super equipados, tudo que um médico na rede pública do Brasil sonhava em ter! MAS os médicos aqui são extremamente impessoais, ao menos comigo, raramente dei a sorte de encontrar algum que realmente resolvesse meu problema. 

Alguns exemplos de coisas que aconteceram comigo aqui: tive um DIU enfiado erroneamente em outra cavidade que não a devida; me deixaram voar para o Brasil com pneumonia e derrame pleural falando que eu estava apenas com uma gripe forte, entre outras histórias lindas... 

Vai ter gente que vai ler isso me xingando, não me importo. Não gosto, é minha opinião, respeite. Hoje, graças ao senhor, tenho um seguro de saúde internacional particular.  

DO QUE MAIS SENTE FALTA DO BRASIL? 
Cara, eu sinto falta de tudo! Da comida, das praias, dos amigos, dos bares, da minha casa! Minha vida no Brasil era linda, não tinha muito do que reclamar, com exceção do mercado profissional que era tenso e das horas infindáveis no trânsito. 

Morar no estado do Rio de Janeiro é uma loucura apaixonante! Eu vivia em Niterói, a cidade sorriso. Que saudade da praia de Itaquatiara, dos sanduíches naturais e dos gatos lindos jogando altinha na praia. Os problemas no Rio de Janeiro se tornam pequenos quando você pesa na balança a natureza, beleza e todo resto.  

Era mais fácil perguntar do que eu não sinto falta. Aí eu responderia: da corrupção e da falta de segurança. Mas isso, em níveis maiores ou menores, existe em qualquer lugar. No Rio tem arrastão na praia e o conflito armado da PM com os traficantes, já aqui na Suécia, de vez em quando tem um maluco jogando gente na linha do trem ou algum atentado terrorista. 

A incidência de crime aqui é muito menor que no Brasil, mas sei lá. Aqui falta bossa nova, empadinha de camarão, acarajé, e couve para feijoada. Fica mais fácil enfrentar o crime de estômago cheio sabe. E, além de tudo, aqui tem a neve, né?

VOCÊ VOLTARIA A MORAR NO BRASIL? POR QUÊ?
Claro! Porque eu sou Brasileira e amo muito meu país! Como disse aí em alguma das perguntas acima, tô aqui por conta do meu marido; se não fosse o gringo, já teria vazado! Ele se sente melhor aqui, devido à profissão dele não ser valorizada no Brasil. 

MAS... em breve, quando nossa situação financeira estiver melhor do que já está, eu penso em mudar sim. Se eu não conseguir convencer o bofe, como a gente diz lá no rio: vai dar ruim! Só sei que não fico aqui nessa neve congelante até morrer. Adoro a Suécia, mas o inverno aqui é terrível! Sou gata-garota de Niterói, gosto de praia e muita vitamina D. Uma outra possibilidade de ficar entre estes dois mundos Brasil e Suécia, era mudar para a Croácia, o que eu iria amar! Vamos ver para onde a vida me leva... nesse sentido, prefiro não fazer planos.

UM RESUMO DA SUA VIDA NA SUÉCIA ATÉ AGORA
No momento, vivo uma ótima fase de vida, meus principais projetos hoje em dia estão localizados na África, Angola e Libéria, mas também tenho projetos na Sérvia e nos EUA, o que me permite viajar com frequência. Minha situação financeira é bem estável, mais o início não foi fácil. Desde que cheguei a Suécia trilhei uma estrada árdua para conseguir chegar onde estou hoje. Quando cheguei não falava sueco e o primeiro emprego que tive foi como Executiva Internacional de vendas para uma empresa de facilities. O trabalho era muito pesado, eu era responsável pelo mercado de vendas da Suécia para a América Latina. Apesar de fazer muitos contatos em português, fui notando que sem saber sueco ia acabar ficando para trás e só apta a conseguir trabalhos que dependessem da minha língua materna. 

Resolvi então largar tudo e me enfiar de cabeça num curso intensivo de sueco. Durante esse período, para me sustentar, dava aulas de dança do ventre, samba e zumba, foi uma experiência bem legal. Sempre amei dançar e dar aulas de dança aqui era muito divertido. Os suecos com os quais tive contato eram, na maioria das vezes, tímidos e reservados, então quando eu entrava na sala de aula com aqueles penachos na cabeça ou com aquelas roupas de dança cheias de brilho, eu LACRAVA! Close puro! 

Como não falava sueco direito, eu me comunicava de tudo que era jeito. Mas também passei alguns perrengues ao me apresentar como dançarina em festas, casamentos e boates a noite. Como meu marido estava sempre por perto, eu me salvei das enrascadas. Enquanto isso cursava sueco; o curso tinha duração de 12 meses, mas consegui terminar em 10, foi muito legal! Ganhei uma bolsa do governo em dinheiro pelo bom resultado e logo consegui um novo emprego.



Desta vez começava na empresa onde trabalho agora. Eles me contrataram inicialmente para dar suporte com tradução simultânea durante as reuniões de um projeto em Angola e ajudar com documentação, mas no meio do caminho, acho que eles perceberam que eu consegui uma melhora significativa na relação com os clientes e fui promovida. Passei então a trabalhar com treinamentos cross-culturais e a mediar interfaces  e comunicações em projetos internacionais. Hoje gosto muito da minha posição, pois apesar de não trabalhar diretamente como psicóloga, minha posição me permite utilizar do meu conhecimento de psicologia diariamente dando treinamentos e trabalhando na mediação de negócios. 

E a área de mestrado em relações internacionais na qual estou me especializando dá conta do resto todo! Acho muito bacana trabalhar com negócios internacionais usando meu conhecimento em psicologia. Acho que seria uma oportunidade da qual muitas pessoas formadas em psicologia poderiam se beneficiar em termos de aprendizado.

Quanto a moradia, com minhas promoções no trabalho, consegui residir melhor. É muito difícil para um imigrante que chega na Suécia, especialmente em Estocolmo, arrumar logo um lugar legal para morar. Os aluguéis aqui são exorbitantes e a concorrência por apartamentos muito grande também.  Quem chega aqui entra numa espécie de fila para esperar um lugar para morar, tem gente na tal da fila há mais de 12 anos que ainda não tem residência fixa. Para muitos, como foi pra mim, é preciso morar no subúrbio por um bom tempo até conseguir se mudar para um lugar melhor. 

Particularmente, eu não gostava muito de morar no meu endereço anterior, não por ser fora da cidade, mas porque local não era tão bonito. No entanto, morar lá foi ótimo em termos financeiros, meu aluguel era muito barato e conforme meu salário foi crescendo fui conseguindo me planejar melhor financeiramente e finalmente comprar meu sonhado apartamento de frente para o mar da Veneza do Norte! Foram três anos de muito sufoco, mas deu tudo certo. Também investi no Brasil e comprei um terreninho lá... Afinal, um dos meus sonhos é um dia poder voltar! 

Resumão: Em 5 anos anos, aprendi 2 línguas novas, o sueco e o croata por conta do marido, comprei um apartamento, fui promovida no trabalho, passei para um mestrado e fiz a especialização em neuroética, além disso consegui visitar cerca de 28 países, a meta ainda é completar 30 países antes dos meus 30 anos, vamos ver se dá! Por hora, to precisando é de férias!

O QUE RECOMENDARIA PARA QUEM VAI SE MUDAR PARA A SUÉCIA? 
1º Aprenda sueco básico o mais rápido possível, comece a estudar no seu país de origem, procure um professor particular. Invista que no futuro compensa!

2º Organize todos os seus documentos escolares, cartas de recomendação e comprovantes de trabalho e ou, qualquer outro documento de importância legal. Traduza todos para a língua inglesa (ou para sueco se for possível) e tente notarizar as traduções em cartório, no ministério das relações exteriores e na embaixada local da Suécia onde você reside. Muitas profissões, especialmente em áreas de saúde na Suécia têm muitas exigências e difícil legalização. 

3º Não compre casacos e sapatos de inverno caros no Brasil, dificilmente você vai encontrar uma loja especializada que venda o que você realmente precisa aqui. Aqui o papo é Titanic! Sabe o Leonardo afundado? Se você vier com casaco fabricado no Brasil, fica sem lugar na tábua.

4º Tente se mudar para cá durante verão sueco (junho, julho, agosto), é mais fácil de se organizar, se locomover e preparar as coisas, uma vez que as cidades ficam mais vazias e as agências do governo com menos filas. 
5º Junte uma graninha de reserva para emergências,  aqui tem papo de comprar um pão por R$20,00. Aqui é caro para quem vem do Brasil.

No mais seja bem vindo às terras vikings e boa sorte, beijo e qualquer coisa me liga! Sou reconhecida aqui por abrigar uns brasileiros perdidos de quando em vez... haha!

Você mora na Suécia e quer compartilhar sua história? Envie um e-mail para: stronglica@gmail.com

4 comentários:

  1. Muito legal sua história. Namoro um sueco e estamos montando um negocio juntos no Brasil.

    Não Descarto ir pra Suécia no futuro, mas seria uma decisão bem hardcore.

    Vou conhecer a terra dos vikings em junho, to muito curiosa.

    Seu blog tem muita informação legal e útil :)

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  2. Muito Interessante, estava procurando um depoimento assim. Sou psicólogo e percebo que na Suécia a profissão parece ser mais valorizada. Alias, ..... qual o contato da karla Pietsch?

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Por Victória Freitas

authorOi, Eu sou a Vic, autora do blog Morando na Suécia.
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